Há exata uma semana terminei a leitura do romance mais complexo que li nos últimos anos. Seu autor é Haruki Murakami, um daqueles escritores de personalidade complexa que apresenta um pouco de sua alma em cada novo parágrafo e em cada linha que vai desenhando. Aos poucos após sua leitura você irá conhecendo os personagens do romance que são – ao que me parece – em verdade seu próprio autor.
O livro trata da história de dois personagens; Tengo e Aomame. Apresentando suas vidas de forma individual e única, dedicando a estes capítulos com seus respectivos nomes. No decorrer da narrativa nota-se que as vidas destes personagens tendem a se conectar de uma forma criativa e inusitada. Afinal quem nunca se pegou pensando em como conheceu as pessoas de seu círculo pessoal, que por sua vez conhecem outras pessoas de seus respectivos círculos de amizade? Assim é 1Q84, uma narrativa sobre dois seres humanos, que irão até o fim da saga se cruzar.
Tengo, é um professor de matemática que aspira um dia ser escritor. Vive uma vida pacata mas regrada, onde seu único desvio moral é possuir um caso com uma mulher casada. Aomame, é uma professora de ginástica, solteira, que vive de relacionamentos furtivos e rápidos, quase todos visando o sanar suas necessidades sexuais momentâneas, é uma assassina de elite, que tem como código de conduta matar homens que maltratam as mulheres.
Se você leu os “50 tons de cinza” e acha que o sexo apresentado lá é um manual para conhecer os desejos humanos, você está enganado e deve aventure-se na leitura de 1Q84. O autor fez questão de mesclar as nuances da natureza humana que vão desde o sexo casual ao sexo necessário a psique humana. Aqui de forma clara, nota-se os traços da necessidade humana de ser feliz e de se sentir realizada em todas as camadas do ser chamado homem.
É possível ver que em 1Q84 também é trabalhado a questão do totalitarismo, apresentada em 1984 de George Orwell (o qual possui uma ligação com o nome da obra de Murakami), apresentando uma situação onde existem duas comunidades “comunas” que são governadas por um forte regime fechado, o que desperta uma investigação acerca da mesma, por alguns personagens do livro como Fukaeri e seu tutor, o professor Ebisuno. Fukaeri é uma moça que escreve um romance chamado “Crisálida de ar” o qual Tengo terá o prazer de ajudar a tornar famoso.
Neste ponto, sobre a “Crisálida de ar” vemos a genialidade de Murakami a trabalhar com um texto dentro de outro texto, no sentido de que “Crisálida de ar” é um texto que está dentro de outro texto, a saber 1Q84, com referências minúsculas e quase ocultas sobre o último. Nota-se aqui um esforço do autor para tornar a trama do livro atraente e perspicaz. Também é neste momento que nos é apresentado a existência de um povo chamado de “povo pequenino”, o qual será capital a trama da obra.
O texto ainda visa trabalhar um assunto que é de interesse geral das pessoas que estudam a filosofia, a ciência e a metafísica, a saber; a existência de mundos paralelos! E de que forma isto é feito? Durante alguma altura da trama Aomame vê nos céus duas luas, e então percebe que seu mundo não é mais o mesmo. Como poderia somente Aomame ver duas luas no céus? Neste momento o próprio leitor se vê obrigado a questionar sua existência fatídica no mundo.
Da mesma forma, eu e você que agora lê este texto, não possuímos certeza de que este mundo é verdadeiro, não podemos afirmar categoricamente que o Sol nascerá a manhã da mesma maneira que ele tem nascido desde sempre, como podemos compreender da filosofia de David Hume, isto é apenas um hábito. Mas não é uma verdade absoluta. Da mesma forma, não se pode negar, que talvez uma cópia sua viva em algum mundo paralelo, em algum canto do universo ainda não desvendado por nós.
Em resumo, 1Q84 é um daqueles livros contemporâneos que marcará a história. Vale a pena sua leitura! A edição é belamente bem acabada, seu papel é de ótima qualidade. O livro I tem 430 páginas e foi traduzido diretamente do Japonês o que nos aproxima bem mais de seu autor. Recomendo a todos esta deliciosa leitura.
Selecionei algumas das passagens, das quais achei mais impactantes:
“Quando se faz algo incomum, as cenas cotidianas se tornam... Digamos que se tornam ligeiramente diferentes do normal. Isso já aconteceu comigo. Mas não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.18)“(...) E é aí que existe a diferença entre a literatura e as ações. Bem ou mal, existem coisas que acontecem por motivações que vão além daquelas que o dinheiro traz. Volte para a casa e descubra o que você realmente quer. Fique de frente para o espelho e observe atentamente o seu rosto. Você verá que isso que eu acabei de dizer já está escrito na sua cara.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.44)“Ele era um homem muito competente, mas trabalhava demais. Recebia um bom salário, mas uma vez morto, não poderia usufruí-lo. Vestia Armani, dirigia um Jaguar, mas, no fim das contas, era como uma formiga. Trabalhou para, no fim, ter uma morte sem sentido. Em breve, sua existência aqui na Terra seria esquecida. As pessoas poderiam até comentar ‘Que pena, morrer assim tão Jovem...’. Ou talvez não comentassem nada.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.61)“– Bem, é que... digamos que a vida real não é como a matemática. Na vida real as coisas nem sempre segue o percurso mais curto. A matemática é, como eu poderia dizer... é algo por demais natural para mim. É como uma paisagem bonita. É apenas algo que está aí. Não é possível substituí-la. Por isso quando eu estou inserido no mundo da matemática, eu me sinto como que gradualmente transparente. Às vezes, isso me dá medo.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.72)“(...) Eu mesmo não sei o que vai acontecer daqui para frente. É um risco que iremos correr. No entanto, o risco é o tempero da vida.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.81)“(...) Aomame era da opinião de que, geralmente, um homem que se preocupa de mais com marcas de bebida num bar não era do tipo que gostava de sexo. Ela não sabia exatamente o porquê disto.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.85)“Nesse mundo, ninguém é insubstituível. Por mais que a pessoa tenha conhecimento e seja capacitada, sempre se pode encontrar alguém que esteja à sua altura. Se o mundo estivesse cheio de pessoas que não pudessem ser substituídas, estaríamos em grandes apuros. Se bem que... – e, para enfatizar suas palavras, levantou o indicador direito - acho improvável encontrar alguém que possa substituir você.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.119)“Se você ama, ainda que uma única pessoa, de verdade, a vida vale a pena. Mesmo que você não fique com ela.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.270)“O fato de vivermos num mundo como o de hoje, com muitas comodidades, deve ter embrutecido nossa sensibilidade, não acha? A lua pode até ser a mesma, mas nós a enxergamos de maneira diferente. Quatro séculos atrás, talvez tivéssemos um espírito mais desenvolvido e mais conectado com à natureza.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.299)“Quem praticou o massacre procura se justificar, criando razões para se explicar, e com isso consegue esquecer. Consegue desviar os olhos do que não quer ver. Mas a vítima jamais esquece. Como não consegue desviar os olhos a lembrança do massacre passa de pai para filho. O mundo, Aomame, é uma incessante luta entre a memória de quem está de um lado e a memória de quem está do outro.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.409)“Mas quando você reescreve o passado, naturalmente altera o presente. O presente nada mais é que o acúmulo de acontecimentos do passado.” (Murakami, Haruki – 1Q84 – p.429)
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